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A Escolha é Clara

(…) Essas vozes dizem frases como essas, “Ora, não diga isso“, “Você não pode fazer dessa maneira”, “É, você sem dúvida não é minha filha (amiga, irmã) se está agindo assim”, “Tudo é perigoso lá fora”, “Quem sabe o que aconteceria se você deixasse esse ninho quentinho?!”, “Você só vai se humilhar”,  ou ainda a mais insidiosa “Finja que está se arriscando, mas em segredo continue aqui comigo” (…)

(…) Neste estágio a mulher vê-se acossada por exigências banais de sua psique que a exortam a atender qualquer desejo de qualquer um. A obediência provoca uma descoberta que deve ser registrada, a de que ser nós mesmas faz com que nos isolemos de muitos outros e, entretanto, ceder aos desejos dos outros faz com que nos isolemos de nós mesmas. É uma tensão angustiante, mas a escolha é clara… (…)

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Chovendo na horizontal

Então ela acordou 8 da manhã, olhou no relógio e bem como estava com qualquer via respiratória obstruída proferiu um “Foda-se” mental e dormiu até dez e meia, quando realmente considerou não ir trabalhar já que sua garganta coçava e isso ocasionava tosses insistentes querendo expulsar dos brônquios qualquer resquício de corpo estranho.

Levantou praguejando contra deuses e deusas e prendeu a chinchila na gaiola usando o subterfúgio da amêndoa descascada. Depois de muita conversa com olhares insinuantes, o peludo dizia que não, mas sim pelo petisco e ela dizendo que sim por qualquer meio que fosse necessário: a força, a amêndoa ou o terrorismo psicológico de perseguir o roedor pelo quarto, ele entrou na gaiola e se embatucou no fundo da toca.

Nisso o relógio batia perto das onze e o ônibus que a levaria até seu prato feito estava fora de qualquer cogitação. Suspirou contrariada, se trocou, escolhendo a calça mais limpa que ainda não havia sido usada naquele mês, bebeu um copo d’água frio mas necessário, assoou o nariz duas vezes, o resultado verde escuro com um misto desagradável de pouco sangue e curta preocupação foi logo descartado, jogou a mochila por cima dos ombros e trancou a porta atrás de si.

A carne de panela estava malpassada demais e ao pedir o suco sem gelo (SEM GELO, por Zeus, ela disse e teve certeza que o rapaz havia ouvido. Ou não) o copo de laranja líquida com pedras frias boiando. “Moço, eu disse sem gelo” e o relógio corria, a garganta observou e esperou…

O ponto apesar de ser a menos de 50 metros dali não impediu o ônibus de passar em cima da hora, e ela perdeu aquela chance, talvez fosse a gripe que a deixasse mais lenta, talvez fossem os fumantes aglomerados na calçada impedindo o funcionamento natural de qualquer sistema respiratório decente nas imediações… talvez ela não estivesse se importando o suficiente.

Então sentou e esperou, pois ainda havia Minutos.

O outro circular passou e ela se levantou. E algo a puxou pelos fundilhos da calça.

Um chiclete fresco.

Toda a incredulidade e putificação possíveis não eram suficientes então subiu no ônibus estupefata tendo certeza que se lhe apresentassem o autor da façanha acéfala ela atravessaria a cabeça do cidadão pelo vidro frontal do veículo.

Não parecia haver fé na humanidade naquele momento, pois em sua cabeça a partir do momento em que um escroto infeliz gruda um chiclete mastigado no assento de um banco, o mundo realmente é uma droga de lugar. E sua calça estava limpa. Era como se toda a essência das pessoas estivesse presente naquela goma. Algo nojento, enjoativo, disforme e que só estava ali com o propósito de transformar a vida dos outros num inferno. Apesar disso sentiu uma ponta de orgulho por ter feito uma analogia tão absurda a partir de uma maldita goma de mascar…

Chegou no terminal rodoviário, o ônibus estava acabando de sair. Ela observou passivamente enquanto ele se afastava, ela do lado de fora, então mandou um SMS desanimado para a colega de serviço “Rola carona hj?”, era meio-dia e vinte, ela respondeu que sim, então voltou para casa no outro ônibus e esperou até meio-dia e trinta e cinco.

Repassava planos sobre como lidar “Como lidar…?” com as decorações juninas relevantes esperadas de uma professora da sua laia, digo, da sua disciplina…

“Bandeirinhas de papel de seda ftw”

foi seu pensamento mais animador, era só aquilo que esperavam, era aquilo que teriam.

Após o caos esperado de todas as cinco aulas era hora de ir embora, hora de ir, que graciosidade, meia hora a mais no ponto de ônibus com meia dúzia de alunos para voltar para casa mas então o vento enlouqueceu os parâmetros e começou a chover.

O céu estava azul e de repente brotaram nuvens. E de repente escuridão.

Essa era a única explicação plausível para o vento e toda aquela água. Água demais.

O horário do circular das seis e cinco da tarde passou e foi embora, e nada de ônibus, a luz oscilava, dentro da escola a esperança tensa dos professores e funcionários do turno da noite, e ela começava a sentir fome. Ajeitou o cachecol roxo em volta do pescoço, sentindo a garganta questionar à chuva aquela sandice toda.

Então a luz foi-se embora de vez, as lanternas trêmulas e celulares irrequietos iluminavam uma série de rostos que confirmavam aquela sensação de que nossos instintos de grupo falam alto demais em situações como essa, quem não estava muito agitado estava quieto demais.Esperando Alguma Coisa.

O horário do circular das seis e quarenta passou e foi embora, os alunos se amontoaram todos dentro da escola e ela sentia a fome crescendo, só queria estar Naquela padaria tomando Café e comendo um bom Pão com manteiga. As coisas simples dessa vida.

Dentro e ao redor da escola era breu, o Homem do Regador devia estar se divertindo lá de cima, e ventava tanto que as gotas dançavam na horizontal pelo céu.

“Busão ‘tá vino!” ele gritou lá da frente, com a blusa de gorro toda ensopada.

“Sai da chuva, menino!” ela gritou lá de trás, e correu atravessando a rua para entrar no circular de janelas embaçadas.

“Caiu uma árvore lá na frente”

“O outro carro atolou perto de Itatiba”

Mas ela não queria saber mais nada, colocou os fones e mergulhou toda sua realidade no que as músicas tinham de importante pra contar.

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